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A ansiedade na clínica: Minha ou do Cliente?

  • Foto do escritor: Integral Engenharia Comportamental
    Integral Engenharia Comportamental
  • há 6 dias
  • 4 min de leitura

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5 (DSM-5) descreve a ansiedade como: “Os transtornos de ansiedade incluem transtornos que compartilham características de medo e ansiedade excessivos e perturbações comportamentais relacionadas. Medo é a resposta emocional a uma ameaça iminente, real ou percebida, enquanto a ansiedade é a antecipação de uma ameaça futura. Obviamente, esses dois estados se sobrepõem, mas também se diferenciam, com o medo sendo mais frequentemente associado a períodos de excitabilidade autonômica aumentada, [...] e a ansiedade sendo mais frequentemente associada à tensão muscular, à vigilância em preparação para perigo futuro e a comportamentos de cautela ou esquiva.”


Ou seja, o ansioso se prepara para um possível perigo que está por vir e, assim, sofre por antecipação. E é esse sofrimento, não de forma tão clara, na maioria das vezes, que chega às clínicas de psicologia.


Pensando nos momentos de preparação de sessões, estudo de caso e intervenção, o terapeuta olha para esses processos comportamentais e enxerga, quase nítidamente, os padrões do seu cliente, entendendo que ali há o que se denomina ansiedade. Mas por que nomear? É fato que cada cliente é um cliente, e são raros os casos que parecem ser exatamente iguais, mas o que eles têm de mais parecido são, justamente, esses processos comportamentais. Cada pessoa tem seu padrão comportamental de acordo com sua história de vida e seu repertório adquirido ao longo dos anos, mostrando-se, assim, necessário que o terapeuta prepare intervenções adaptadas a cada história de vida.


Porém, mesmo que os processos sejam subjetivos, quando colocados em uma linguagem mais “acadêmica”, por assim dizer, é possível observar padrões comportamentais comuns. Tanto que o próprio DSM-5 classifica esses padrões como uma antecipação de uma ameaça futura. Mas, então, se esses padrões existem e são relativamente fáceis de identificar, por que a pessoa vai para a terapia?


Os padrões comportamentais são mais fáceis de observar por pessoas de “fora”, que escutam as nossas histórias e, com o passar do tempo, conseguem identificá-los. É assim que o fenômeno da personalidade, por exemplo, ocorre. Dependendo de um conjunto de comportamentos (públicos e privados, externalizados), uma pessoa pode chamar a outra de depressiva, irritada, brava, emotiva ou ansiosa. Sem qualquer treino para observar os seus comportamentos, esses padrões podem não ficar claros para a própria pessoa que os possui. Ou até mesmo a pessoa pode, sim, ter uma certa noção de alguns padrões, mas não consegue identificar a fonte, como começou, por que começou e por que continua acontecendo. Dessa maneira, o sofrimento chega à clínica como algo parecido com: “Não sei por quê, mas sempre que uma oportunidade nova aparece para mim, mesmo sabendo que vai me favorecer muito, deixo ela escapar. Isso me dá muita agonia, porque eu poderia estar vivendo coisas incríveis.”


Para que o cliente possa enxergar seus processos comportamentais e, dessa forma, nomeá-los, precisa passar por um processo de aprendizagem para descrever melhor esses comportamentos, incluindo as situações, o que aconteceu depois que reagiu, como se sentiu, se aconteceu de novo da mesma forma, se fez algo diferente e quais foram os efeitos disso. Durante esses momentos, o próprio cliente pode começar a nomear esses processos comportamentais. Mas engana-se o terapeuta que acredita que chegar nesses momentos é algo rápido e fácil.


Afinal, não deveria ser algo rápido e fácil.


A não ser que o cliente seja alguém com amplo repertório de autoconhecimento e que "só" precisa de um olhar de fora sobre a sua vida, o conhecimento dos processos comportamentais pode ser muito difícil de desenvolver. Ao longo da terapia, é importante permitir que o cliente experimente diversas maneiras de se comunicar, de explicar e de explorar as possibilidades de descrição. Afinal, está passando por um processo de aprendizagem, adquirindo um novo repertório. Muitas vezes, para o terapeuta, a resposta está ali, é ver, é falar, é olhar um pouquinho mais para tal comportamento, que vai achar a peça do quebra-cabeça que estava faltando.


E é aqui que encontramos outro tipo de ansiedade. Não é a ansiedade definida pelo DSM-5, mas sim a do senso comum. Aquela definida como uma pessoa que mal pode esperar para que algo aconteça, animada, com vontade de viver logo tal situação ou evento. Em muitos casos, o cliente pode estar no seu pico mais analítico, descrevendo seus comportamentos com clareza, estabelecendo relações com o ambiente, sensações, emoções e pensamentos, mas ainda tem dificuldade em enxergar essa última peça do quebra-cabeça.


Qual seria, então, o problema do terapeuta falar e mostrar logo onde está essa última peça e o que fazer com ela? O problema aqui é que esse tipo de vontade vem da ânsia do terapeuta de ver o seu cliente avançar mais na terapia e alcançar uma melhora. Querer esse avanço não é ruim, mas, se o cliente não consegue chegar lá sozinho, vale perguntar como ele vai resolver suas questões fora do ambiente controlado e tranquilo da terapia.


O objetivo geral da terapia, que se aplica a todos, é ajudar o cliente a alcançar um nível de independência e a generalizar o que aprendeu em terapia para outros aspectos da sua vida. Dessa forma, se o terapeuta dá todas as respostas, o cliente não precisa pensar sozinho; o que ele precisa fazer é viver a terapia. É por isso que o terapeuta precisa estar atento, também, à sua própria ansiedade e manejá-la de forma que não interfira no processo de raciocínio e aprendizagem do seu cliente.


Essa ansiedade é normal; querer logo essa melhora do cliente não é ruim, e, na maioria das vezes, vem de um lugar puro, com a intenção de ajudar aquela pessoa que está em sofrimento. Mas, por melhores que sejam as intenções, a longo prazo, isso pode ser prejudicial, tornando aquela pessoa dependente da terapia, o que não é ideal. Não só por uma questão financeira, mas também por inibir que aquele cliente decida, pense e raciocine por si próprio, o que pode causar mais sofrimento.


Portanto, é muito importante que o terapeuta sempre se pergunte: “A ansiedade na clínica é minha ou do cliente?”.


Psi. Juliana Suemi Gomes Shirakawa (CRP 08/48208)

 
 
 

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