Formação em massa de técnicos em psicologia
- Integral Engenharia Comportamental
- 31 de mar.
- 3 min de leitura
A urgência por tratamentos rápidos para as mazelas humanas não parece ser algo da atualidade. Na verdade, chega a parecer quase que um caminho inevitável para a nossa espécie: sempre queremos algo mais e mais rápido quando se trata de resolver as nossas dores ou de produzir prazer.
Ao longo do tempo, entretanto, parece que essa urgência passou a se tornar cada vez mais intensa e a nossa capacidade de nos expor ao processo ficou cada vez mais aversiva. Desenvolvemos computadores cada vez mais rápidos, celulares que realizam milhares de tarefas por segundo, tiramos as aberturas “poéticas” dos filmes, criamos café solúvel (para não perder tempo esquentando água), “macarrão” de 3 minutos e sistemas de IA para obter respostas rápidas a perguntas complexas.
Não estou aqui para demonizar essas tecnologias e procedimentos que aceleram resultados (exceto a mudança de hábitos em 21 dias. Isso é uma balela enorme mesmo). Essas coisas podem ser boas. O problema está em como nos relacionamos com elas, e não no quanto elas tomaram lugar nas nossas vidas, criando a necessidade de resultados instantâneos.
Tudo isso, toda essa instantaneidade, tomou conta da nossa construção psicológica. Com isso, nosso anseio por resultados rápidos se estendeu até mesmo à nossa saúde: queremos “colocar o shape” em 3 meses, queremos emagrecer rápido tomando algumas agulhadas, queremos mudar nossos hábitos em 21 dias e queremos deixar de ser ansiosos e/ou depressivos do dia para a noite.
Uma vez que nós nos tornamos adictos à urgência, o “mundo” também teve que se adaptar. As áreas da saúde estão desenvolvendo procedimentos cada vez mais rápidos, remédios cada vez mais potentes... E, na psicologia, começamos a vender a ideia de que o psicólogo precisa estar munido de um arsenal de ferramentas e protocolos para promover mudanças estruturadas e rápidas nos clientes.
Isso se tornou quase um fetiche, uma obsessão. Quem não usa ou não conhece uma ferramenta para ansiedade, depressão, tristeza, felicidade, alegria, saudade – e qualquer outro fenômeno da existência humana – é visto como um profissional “despreparado”.
Como assim você não chega na clínica com uma prancheta com perguntas completamente fechadas, não faz uma anamnese extremamente estruturada de uma vez só e já escolhe a ficha de protocolo para o cliente o mais rápido possível?
E os alunos estão sendo formados desse jeito. Sabem inúmeras técnicas, diversas ferramentas, nomes e mais nomes, conceitos e mais conceitos. São capazes de corrigir até os livros de Skinner, Beck, Freud. Gostam de vídeos de briguinhas de conceitos na internet; acham que isso valoriza e defende sua área. Mas não conseguem estar presentes em frente aos seus clientes, prestando atenção ao que eles falam, fazem e demonstram, pois sua atenção está voltada para a próxima e a próxima pergunta e para o anseio enorme de “descobrir” qual ferramenta vai resolver a vida de quem contrata seus serviços.
Não são mais ensinados a ter presença, escuta, atenção, calma, empatia, engajamento... vínculo! Parece que estamos ensinando “apertadores de parafuso”. Só sabem dizer qual chave usar, mas não são capazes de deliberar qual parafuso deveria ser apertado.
O resultado disso é uma agenda cheia de clientes que chegam pela promessa de resultados imediatos, mas saem depois de 1 ou 2 meses por se frustrarem ao tentarem diversas estratégias rápidas –sem sentido para a vida deles. Então… tem muitos clientes, mas não existe retenção porque não existe vínculo. Sem vínculo, não há processo de mudança. Seres humanos precisam de relações e não de pranchetas.
Quando o cliente age de uma forma que suas anamneses não contemplam, não sabem o que fazer... se perdem. Não aprenderam a olhar o cliente, a olhar o comportamento como ele é, a organizar o raciocínio, a encaixar a teoria no comportamento do cliente e não o cliente nos conceitos da teoria. Não conseguem identificar processos comportamentais, pois eles são tão fluidos que não há pergunta que os cerque completamente. Há apenas linha de raciocínio, mas isso eles não aprenderam, pois a linha de raciocínio não me dá uma estratégia imediata.
Passamos tanto tempo criticando modelos médicos e estamos cada vez mais nos aproximando de meros técnicos em psicologia. O ensino do pensar foi substituído pela instantaneidade e os estudantes só se tocam disso quando se percebem perdidos na clínica.
Não deixe isso acontecer com você! Pode ter certeza de que, se você aprender a pensar em vez de escolher uma ferramenta, poderá criar as suas próprias no futuro e, com certeza, se destacará como profissional. Afinal, em meio a tantos técnicos, quem souber pensar vai virar gerente.
Dr. André Connor de Méo Luiz


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