Não há mindfulness que supere a construção de boas relações e de um dolorido não!
Sim, você está estressado (a)!
Todos nós estamos…
É muito provável que você esteja sendo perseguido por momentos frequentes de perda de concentração e vitalidade, oscilações de humor, e comportamentos impulsivos e compulsivos que podem envolver compras não planejadas, comer muita besteira, beber, jogar etc.
Vivemos num mundo em que cada um de nossos comportamentos é controlado pelo relógio e temos a nossa personalidade costruída em termos de produtividade. Quanto mais fazemos e quanto mais rápido fazemos… melhor somos definidos pelos outros; e passamos a acreditar nisso também.
Assim, alarmes, agendas, cronogramas, compromissos de forma geral se tornam eventos estressores que só aumentam de frequência e complexidade. Passam a ser adicionados e retirados de nossas vidas simplesmente porque pegamos mais e mais coisas e depois queremos nos livrar delas. Afinal, pegar mais e nos livrar rapidamente virou sinônimo de produtividade.
Com isso, passamos a viver os nossos dias sob controle do relógio, de modo a nos livrar de demandas e problemas o mais rápido e na maior quantidade possível, deixando pouco ou nada de tempo para nos conectarmos com nossos valores e, especialmente, com outras pessoas.
No longo prazo, o resultado disso é uma vida com perda de sentido e um corpo em estado constante de ameaça que começa apresentar sintomas cada vez mais difíceis de lidar. Esse estado de ameaça constante também te deixa cada vez mais sensível ao próximo evento estressor e você começa a “quebrar” cada vez mais cedo. Quebrar mais cedo é algo que passa a te incomodar profundamente. Você passa a ler essa quebra não como um problema de como as coisas estão acontecendo em sua vida, mas como uma falha em quem você é, uma perda de identidadae produtiva e, possivelmente, alguém incapaz aos olhos de terceiros. Então, você busca corrigir isso. E é aqui que você encontra falas como: “você precisa ser resiliente”; “não seja frágil”; “você precisa dominar as emoções”; “pare de frescura, encare seus problemas”.
Não a toa, a busca por ferramentas, técnicas, cursos e intervenções fast-food milagrosas de gerenciamento de estresse tem aumentado todos os dias. Você abre um curso em vídeo de mindfulness de 4 minutos, compra um livro de autodesenvolvimento sobre como ser estóico ou vai em uma palestra de 1h30 sobre como blindar a sua mente.
Faz isso buscando se tornar capaz de lidar com todas as demandas que você tem da forma mais rápida e completa possível e não deixar suas emoções e seu corpo “perturbarem” a sua produtividade. Afinal, se você não fizer tudo isso, quem você passará a ser para você mesmo e para os outros?
Você faz tudo para voltar a abraçar e se livrar de todas as demandas possíveis.
Percebe a armadilha? Ao se munir de inúmeras estratégias fast-food você arranja OUTRA demanda para CONTINUAR no mesmo turbilhão de demandas que te fez procurar ajuda. Ou seja, você vai continuar sendo SOMENTE um resolvedor de demandas…
sem tempo,
sem valor,
sem sentido.
Agora, você arranjou outra fonte de estresse: a ruminação de que você é frágil e que tem que se livrar disso fazendo mais e sentindo menos. Sua vida se torna cada vez mais cinza. Os efeitos imediatos, secundários e até terciários das fontes de microestresses se tornam o seu dia a dia.
Você, cada vez mais atribulado, recebe um email com mais uma solicitação. Ignora seu corpo e começa a fazer o mais rápido possível. Volta para casa ruminando sobre não ter conseguido se concentrar direito e passa boas horas se virando de um lado para o outro antes de dormir. Acorda cansado e possivelmente quase atrasado. Não come e sai correndo para a próxima atividade. Deixa de passar momentos com a sua família e, ao passar do tempo, começa a ruminar outra coisa: a culpa por não ter dado atenção para as pessoas queridas.
Tenta se livrar disso tudo ouvindo um bom a velho podcast sobre “A mente racional do empreendedor” e passa a tentar justificar seus atos de descuido com você mesmo e com os outros. Porém, continua na mesma contingência. Logo logo essa justificativa não terá mais força e você precisará de mais uma; ou seja, outra tarefa.
Ao passar do tempo, você se encontra com diversas somatizações na pele, no coração e na sua psiquê. Depressivo, ansioso, paciente cardíaco, obeso, sozinho e o pior de todos os problemas: sem sentido.
Não deixe sua vida chegar nesse ponto. Pare de procurar estratégias rápidas e milagrosas para se tornar frio e racional. O nosso cérebro foi moldado em condições muito diferentes das que vivemos hoje. Para ficar bem, ele precisa de duas principais coisas: ócio e relacionamentos interpessoais. O ócio permite recuperação e as relações se tornam fontes de resiliência, pois criam diferentes dimensões das quais você toma parte, se torna parte e passa a ter uma definição de si mesmo como algo múltiplo. Se uma der problema, as outras te sustentam. Agora, se você é apenas uma coisa, você vai se perder quando ela se perder.
Para isso, em vez de dar conta de tudo, você vai precisar negar algumas (ou várias, dependendo de sua vida) coisas. Negar dói; dá medo; parece que você estará deixando de ser algo que deveria ser. Mas é a única saída real que você pode ter de uma vida sobrevivida e não vivida.
Talvez você deixe de ganhar algum dinheiro. Talvez alguém diga que você não é mais o mesmo. Mas você estará em melhores condições para ser alguém de verdade, pois terá tempo para isso.
Garde isso em sua mente: a gente não precisa (e nem consegue) lidar com todos os estressores da vida. Alguns, a gente precisa simplesmente SE LIVRAR.
Junto aos seus novos “nãos”, busque relações valorosas.
Relações que oferecem apoio para aliviar emoções negativas;
Que ajudam a redistribuir tarefas ou lidar com dificuldades;
Que ajudam a entender diferentes dinâmicas sociais;
Que nos dão confiança para impor limites e posicionamentos;
Que nos apontam novos caminhos;
Que nos ajudam a manter a perspectivas diante de momentos difíceis;
Que nos lembram do nosso propósito ou sentido do nosso trabalho;
Qe nos ajudam a rir de nós mesmos e das nossas falhas.
No final de tudo, você não vai se arrepender por não ter resolvido mais as coisas, mas sentirá uma falta imensa de não ter abraçado, beijado ou vivido mais com as pessoas que ama.
Quer uma vida com menos estresse: diga não e encare os custos de curto prazo atrelados a isso. Com certeza eles serão muito menos deletérios que os custos de dizer sim para tudo e buscar não sentir nada.
Dr. André Connor de Méo Luiz



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